E Deus fez Maria Lúcia para que fosse para sempre casta. Mas não se pode nem saber se Maria Lúcia acreditava em Deus. Certa vez disseram que se tornaria freira, mas uma boa noviça jamais usaria um decote tão convidativo. Não que realmente convidasse alguém: Maria Lúcia dizia em alto e bom som que ninguém entraria ali. Sua castidade, no entanto, não era por pudor mas antes por mero desinteresse. Desacreditava na idéia de que o amor poderia um dia de fato provocar nela a imensidão de prazer que sempre almejara. Poupava-se, assim, da frustração a que as outras e os outros se submetiam.
Mas não, não era dada à renúncia cristã. Era ao outro que renunciava, não ao prazer. O prazer, o prazer era tudo em sua vida. Por vezes, em qualquer lugar que estivesse (e isso desde pequena), punha-se a olhar para o céu e a se tocar com toda a volúpia que Deus - o mesmo que inventara sua castidade - havia dado a ela. Se alguém duvidava de sua compulsão masturbatória, bastava reparar em como vidrava-se apaixonada diante do espelho e refazia os próprios cachos dourados quantas vezes fossem necessárias até que ficassem perfeitos. Porque Maria Lúcia era muito habilidosa. Por vezes, quando lhe pediam, até fazia cachos em outras moças. Tinha lá seus momentos generosos. Aliás, que fique claro: não era das mais egoístas. Por isso mesmo era bem querida. Sua voz tinha uma certa melodia pra sempre infantil que fazia qualquer um se encantar. E teve um apaixonado suicida. O que aumentou nela a convicção de que o amor é uma coisa extremamente idiota. Ou: "como renunciar ao prazer de viver em nome de um amor que jamais vingará?" E não era injusta. Não mantinha os apaixonados aos seus pés pelo puro prazer de ser amada. Não. Bastava-se. E deixava livre quem quisesse ir embora. Mas eles ficavam.
Teve um melhor amigo. Um quase-amante. Nunca se tocaram. E Maria Lúcia queria o bem dele mais do que se desejava perfeita refletida no espelho. Foi a maior proximidade do amor ao outro que ela conseguiu alcançar. Por isso ofereceu a liberdade vigorosamente, brigou, disse nunca mais querer vê-lo. Bradou raivosa que o desprezaria para sempre se ele se tornasse um suicida fraco e imbecil. Foi malvada pela primeira vez na vida. Em seu primeiro e único ato de bondade. Ele sentiu ódio. Padeceu de amor. E consolou-se com Luciana. Que era bela e carnuda. Ancas volumosas, corpo generoso. Corpo que mais tarde deu a ele prazer, calor, sossego, filhos e um colo incomparável.
Já Maria Lúcia mudou de cidade. Quis conhecer o mundo. Dizem alguns que virou cabelereira em uma terra distante. Outros contam que finalmente se tornou freira ou puta. Há quem afirme que se casou com um rico empresário e fez tantas plásticas que ficou irreconhecível. O melhor amigo-amante acredita que, assim como Alice, Maria Lúcia entrou num espelho e foi parar no País das Maravilhas. Eu digo que, como Narciso, ela se afogou. Mas talvez esteja feliz, gozando gostosa de si. Quem sabe onde fica a felicidade de quem é, para si, o mundo?
domingo, 25 de maio de 2008
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