terça-feira, 20 de maio de 2008

Pequena deusa

Vive-se apenas. O resto é a forma como se descreve a vida. Vívian furtava. Lápis, canetinha, bala, bolinha de gude. Gostava de reter tudo. Guardava o que não lhe pertencia e sempre se esquecia de devolver aquilo que tomava emprestado: era como nunca mais perder as migalhinhas de amor dos outros. Dia desses, toda dolorida nas pernas e toda apertada no coração, pegou na caixa um lápis antigo - há muito tempo furtado da "melhor amiga pra sempre" (a quem nunca mais viu) - e desatou a escrever. Lançou no papel um segredo mal-traçado, um conto um pouco torto, reinventou uma oração antiga e proclamou a própria santidade. Escrevia mal, como toda menina que nunca consegue aprender. Tudo o que fazia, aliás, fazia mal. Como toda menina que nunca consegue aprender. Vívian vazava de amor e implorava ternura a quem quisesse ouvir. Mas as pessoas crescidas nunca eram boas ouvintes. Descobriu que gostavam de ler, e então decidiu escrever. Mas escrevia mal. Trocava as letras, rimava errado, fazia um monte de rabiscos feios. Tinha vontade de escrever versos de amor, ou então palavrões - de ódio. Tinha vontade de aprender muito, mesmo não sendo a mais inteligente, a mais sagaz, a mais perfeita, a mais linda, aquela que daria todo o orgulho do mundo ao mundo inteiro. Mesmo sem fazer com que o universo se prostrasse aos seus pés, queria ter a gotinha da sabedoria de uma pequena deusa. Que era.

Um comentário:

Cora disse...

Esse vc fez pra mim e ponto
rs

BjO